Os Sonhadores

Os Sonhadores foi o último filme do ciclo “Imagens em Pauta” de 2009, no cinema do Sesc Arsenal, em Cuiabá, dia 24 de novembro. A exibição contou com a participação de membros do Núcleo de Estudos Comunicação, Infância e Juventude (NECOIJ), da UFMT que promoveu um debate no fim do filme.

Os Sonhadores
Os Sonhadores

Os Sonhadores conta a história de três jovens, dois irmãos franceses e um amigo americano, que se conhecem em meio a protestos juvenis em pleno ano de 1968, – emblemático por ter sido o “ano das revoluções”, onde havia uma grande mobilização ocorrendo simultaneamente no mundo todo, e especialmente na França, como é mostrado em diversas cenas ao longo do filme -, e que com o passar do tempo constroem uma relação de afeto e amor entre eles, causando conflitos e novas descobertas.

Sobre esses conflitos pessoais mesclados ao movimento estudantil, Diego Baraldi, coordenador do projeto, ressaltou a intenção do diretor, Bernardo Bertolucci, que lançou o filme aos 60 anos e tendo através da construção dessa história uma forma de “prestar contas com sua juventude, já que em 68 era ‘dever’ do jovem ser político”. Outro ponto em destaque são as diversas referências cinematográficas contidas no filme, não só nos diálogos dos personagens, como também em cenas reproduzidas por eles.

Pais e Filhos

O ponto que talvez chame mais atenção no filme é a relação dos dois jovens franceses Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel), que são irmãos, mas ao mesmo tempo mantêm uma relação “quase” incestuosa. Quase porque ela não acontece de fato, mas na imaginação do telespectador já poderia ter ocorrido. Essa relação é colocada em questão com a chegada de Matthew (Michael Pitt), que como observado no debate foi alguém que “vendo de fora aquela situação expôs aos dois irmãos fazendo com que eles passassem a refletir sobre isso também”, e assim muda todo o rumo da história.

Já a relação dos dois irmãos com seus pais foi outro ponto de discussão, pois eles aparecem apenas no começo e no final do filme, mas explicam muitos comportamentos de Isabelle e Theo. Entre eles, de tomar atitudes que os pais desaprovariam, apenas para poder provocá-los.

Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel)
Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel)

Entre os espectadores do filme, uma cena chamou muita atenção: a cena final quando os pais voltam de viagem e encontram o apartamento cheio de comidas e bebidas espalhadas por toda parte e os três jovens dormindo em uma barraca no meio da sala. Os pais não fazem nada, apenas deixam um cheque para continuar a pagar as despesas dos três. A dúvida dos espectadores foi: eles já sabiam da relação entre os dois filhos e/ou queriam evitar um grande conflito, podendo destruir aquela família já tão desestruturada?

Jovens e atuação política

A pergunta que iniciou o debate político sobre o filme foi “Por que o título ‘Os Sonhadores’?”, para uma das participantes, esse título justifica a posição dos três jovens, que falam, lêem e ouvem muito sobre ideologias, políticas, revoluções, mas não agem para que isso aconteça, ou seja, eles apenas “sonham” com uma França melhor, uma Cinemateca melhor, uma vida melhor, mas de fato nada fazem para isso. Esse pensamento é apresentado por Bertolucci em uma cena de discussão em que Matthew indaga Theo, dizendo que a “revolução estava acontecendo enquanto eles viam filmes e tomavam vinhos caros”.

A participação política dos jovens em 1968 foi de suma importância para todo o contexto revolucionário, mas o que se vê no filme é que a atuação de Isabelle e Theo só começou quando a luta “invadiu”, literalmente, a sala deles. Fato que, segundo uma das espectadoras que estudava na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo, no ano de 1972, o ato de fazer alguma coisa muitas vezes era por impulso ou até mesmo sem impulso, era “na onda” dos demais, por isso, Os Sonhadores é um filme de tantas visões e linguagens. O filme fala de jovens, de cinema, de pais e filhos, de política, e de atuação política, além de demonstrar a participação política como fundamental, não somente o conhecimento teórico.

Imagens em Pauta

O ciclo de exibição de filmes do “Imagens em Pauta” continua em 2010 com novos temas. Diego Baraldi aproveitou a ocasião para agradecer a todos que compareceram ao longo do ano, e ainda convidar para voltarem às exibições do ano que vem.

*Matéria feita para o portal NECOIJ

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11 comentários sobre “Os Sonhadores

  1. Parabéns pela matéria Bruna, muito boa!
    Fiquei interessadissima pelo filme, vou correr atrás pra ver! Valeu pela indicação! o/

  2. Louis gatíssimo!! É nesse filme que eles ‘jogam’ de adivinhar cenas de filmes né? Faz tanto tempo que assisti.

  3. Bruna, obrigada pelas palavras, estava tentando encontrar um texto sobre esse filme pra ver se tinha realmente compreendido, e lendo o que você escreveu, vi que não estava errado. Gosto muito de política, mas às vezes cometemos certos “exageros” por conta dela. Valeu mesmo!
    Abraço, vou voltar mais vezes aqui 😉

  4. Confesso que eu fiquei muito constrangida quando vi o filme. Não gostei muito, mas depois de revê-lo, pude refletir melhor sobre a história,a mensagem, e a ideia do filme que acabei convecida de que OS SONHADORES é um exclente filme. Digo isso porque BERTULUCCI é do tipo realizador: opta muito por temas polêmicos, o que é muito bom por haver diálogo e discussões para uma melhor compreensão das coisas, principalmentes das coisas reais da vida como nesse caso foi a sexualidade.
    BERTOLUCCI nos dá a liberdade no filme de poder-mos expressar os nossos sentimentos, desejos, ternuras,que infelizmente nem todos têm a corajem de o fazer por vergonha,ignorancia,etc.
    VIVA A LIBERDADE DA SEXUALIDADE. E quem tiver a ousadia de discordar é um HIPÓCRITA!!!!
    AMEIIIIIIIIIII O FILME NOTA 1000!!!!

    RECOMENDO!!!!!!

  5. Olá Bruna!
    Encontrei a matéria pelo google, muito legal.
    Só queria pontuar que há uma informação incorreta quando você
    comenta sobre o acerto de contas com a juventude que Bertolucci faz
    em “Os sonhadores”. O filme, de 2003, foi lançado quando o cineasta
    tinha mais de 60 anos, e não 27, como aparece no texto. Daí o acerto
    de contas com o passado. Imagino que em algum momento eu tenha mencionado, ao falar sobre o Bertolucci, que ele tinha 27 anos na época
    dos eventos de maio de 68, o que pode ter gerado a confusão.
    Abraços e parabéns pelo blog!
    Diego Baraldi

    • Oi, Diego!
      Que bom que você leio esse post. Fiquei muito feliz!
      O ciclo sobre juventude foi um dos melhores do Sesc, vi todos os filmes!
      Relendo o post, percebi que não tinha muita lógica ele lançar o filme aos 27 anos e fazer “acerto de contas” com a juventude, né?
      Obrigada pela visita e pelo comentário! 😀

Solte o verbo!

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