Quem quer ser Amélia?

Gosto muito de ouvir música pelo LastFm, é uma ótima ferramenta para os viciados em música como eu, e principalmente, pra quem gosta de ouvir música velha, nova, ruim, boa, pesada, calmante, enfim, recomendo baixar o plugin deles e sair por aí ouvindo umas coisas legais. Daí que nessa última vez uma sequencia, no minímo, interessante, me fez correr pra esse post. Trata-se de duas músicas falando de uma mesma mulher, a Amélia.

Não vou colocar as letras na íntegra aqui, apenas as partes que mais me chamaram a atenção. Primeiro, vamos à Demônios da Garoa que como minha amiga Natália Leão corrigiu não foi quem compos a letra, logo, transfiro meus sentimentos contrários ao machismo de Ataulfo Alves e Mário Lago, ok?

Demônios da Garoa – Ai, que saudade da Amélia

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado
Dizia “Meu Filho, que se há de fazer ?”
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia que era mulher de verdade

Nada contra o grupo nem as pessoas que os ouvem, mas o que é essa letra? Essa imagem da mulher passiva a tudo e sempre às ordens do seu amado homem já deu, né? Hoje em dia se não tem o que comer a mulherada vai pra rua trabalhar, meu filho! Não fica achando bonito, não. Sim, sim, eu sei que isso foi escrito há alguns anos, mas quer ver que tem muuuita gente que pensa e age assim? Não precisa buscar muito longe…

Próxima Amélia, a desconstruida da Pitty. Peguei mais trechos, já que a baiana escreveu bem mais do que duas estrofes como fizeram os paulistanões da garoa.

Pitty – Desconstruindo Amélia

O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair

Disfarça e segue em frente
Todo dia, até cansar
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa,
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto
já não quer ser o outro
hoje ela é um também

Agora, sim. Gostei dessa Amélia. Aliás, se puderem leiam a letra inteira, é realmente muito boa. Deu pra reparar que a Amélia da primeira estrofe é exatamente aquela da qual sentia saudades os Demônios? Pois bem, é ela mesma. Agora imagina se eles conhecessem essa da segunda, que virou a mesa e assumiu o jogo?

Entre a Amélia que faz sentir saudades e a totalmente desconstruida, sou muito mais a segunda, óbvio. Espero que as que não são, comecem a acordar. De início, que tal  ouvir as duas músicas, compará-las e decidir qual prefere? Recomendo!

Pra terminar, outra frase da baiana:

Tem talento de equilibrista
ela é muitas, se você quer saber.

Descubram seus talentos, se desconstruam e chega desse papo de “Amélia que era mulher de verdade”, ok?

 

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7 comentários sobre “Quem quer ser Amélia?

  1. Olá!

    Lógico que você esperava que eu fosse aparecer aqui, não é mesmo?
    Quero deixar claro, desde já, que concordo plenamente com aquela frase”gosto não se discuti”, mas tenho que fazer algumas considerações.

    Primeiro de tudo: Comparar Ataulfo Alves e Mário Lago, sim a Letra e a Música não são do grupo Demônios da Garoa, como expôs no seu post (afinal esses nem compositores são), com a Pitty não é algo interessante.

    Não entrarei no mérito de qualidade musical, já que são estilos musicais completamente diferentes. E realizar essa comparação tendo em vista uma letra que foi escrita e musicada na década de 40 e ganhou o prêmio de melhor samba do Carnaval Carioca de 42, juntamente com Praça Onze, e ainda recebeu a participação de Jacob do Bandolim, creio que seria um sacrilégio para com os bons compositores do nosso país.

    Entretanto é bom lembrarmos que essa Amélia a quem ele se refere, por sinal muito condizente com as mulheres da década de 40, veja bem, é uma mulher perfeita, que em seus devaneios românticos a imaginava como “a mulher de verdade”.
    Isso tudo por que ao realizar a troca de esposa se deparou com uma saudade idealizada da figura da mulher ideal, de acordo com os parâmetros dos anos 40 e em relação a mulher atual demonstra estar decepcionado.

    Dessa forma, minha amiga, creio que não se trata de escolhas, ninguém escolhe ser Amélia, haja vista que se trata dos sonhos de um sambista apaixonado (Mário Lago) que se decepcionou com a atual esposa “luxuosa” e principalmente por se tratar de uma letra condizente aos padrões da sociedade da época.

    Na letra podemos, inclusive, levantar outra questão, pois quantas amantes que “Só pensam em luxo e riqueza” existem hoje em contrapartida as Amélias Idealizadas?
    Será que Ataulfo e Mário já estavam indagando a possível realidade das mulheres do séc XXI se encontrariam? Estariam eles prevendo uma possível movimento feminino das mulheres contemporâneas?

    heheheheh
    x)

    Um beijinho.

    ps.: adorei o novo leiaute do blog!
    tá moderninho!
    hihihi

  2. Êê Natália, você e seus comentários pertinentes, saudades de discutir com você, viu?!
    Olha só, como falei no post, assim que ouvi as duas músicas fui direto escrever, logo, não fiz uma pesquisa história e social pra saber que não foi o Demônios e nem que a canção levou prêmios e participações, o que não mudou muito minha opinião, já que prêmio, troféu, medalha e essa parafernalha toda não representa exatamente a qualidade de certas coisas, muito menos, música.

    Outra coisa, é preconceito bobo não querer “comparar” compositores, hein? Não vi, assim como não vejo, problema nenhum comparar Ataulfo e Lago com a Pitty. Sou contra “endeusamentos musicais”, não poder criticar alguém só porque é o Graaande Ataulfo Alves. Tô fora!

    Quanto à sua opinião em “escolher” ser Amélia, é…realmente, não se discute. Minha visão é a de que ainda há mulheres sendo a Amélia “burra e cega”, quando poderiam ser mulheres mais capazes e independentes nas suas decisões. Isso sim é uma escolha, e não uma condição ou objeto da imaginação masculina.

    Xiii, Natália, vamos ter que prolongar essa discussão pessoalmente quando a senhora voltar do Rio, vamos falar de machismo, feminismo, e todos os ismos que nossa cabeça inventar, ok?!

    Comente sempre, pois lendo me lembro de você falando, e não, não serei sentimentalóide, mas sinto saudades. (droga!)

    Beijooo!

  3. Oi, Bruna. Achei muito interessante a comparação entre as letras. Concordo com sua amiga que comentou com relação aos dois estilos serem diferentes e estarem inseridas em contextos diferentes, mas ambas podem ser lidas da forma como você fez e ficou ótimo.
    Também acho que essa “Amélia, mulher de verdade” já está mais do que morta, ainda bem!
    Abraços!

    • Amélia não mais é q a mãe no dia dia. Nunca podemos comparar uma mulher, amante, esposa.
      São diferentes mulheres em situações adivrsas.
      Acpior feminista e aquela q é ante social. Valeu

  4. Interessante sua forma de pensar, Bruna. Como homem moderno não acho nem um pouco atraente qualquer tipo de submissão feminina. Acredito que isso esteja mudando. Aos poucos, sim, mas está. Gostei de ver sua falta de preconceitos ao comparar a Pitty aos Demônios. São dois artistas completamente diferentes, mas de alguma forma abordaram o mesmo tema sob ângulos diferentes, além do gênero masculino/feminino.
    Que todas as meninas e mulheres leiam esse seu excelente texto, e todos os outros com a tag “feminismo”. São muito bons!
    Fico muito feliz e de certa forma esperançoso em ver que as feministas hoje em dia são menos sisudas e agressivas. Lutem e façam a mudança, garotas!
    Abraços!

    • Oi, João, obrigada pelo comentário!
      Que bom que leu outros post sobre feminismo além desse. Quero voltar a escrever mais sobre isso, gosto muito.
      Quanto à minha comparação, é como eu disse, não sacralizo ninguém, acho isso muito chato, assim como acho chata essa briguinha “feministas x o resto do mundo que não concorda com a gente”. Não é bem assim que tem que ser, né? Tem que ser brava, tem que ser durona, às vezes, mas sem exageros. Não é impondo uma posição que ela será aceita.
      Bom, já percebi que preciso mesmo escrever mais. Me empolguei no comentário. 🙂
      Obrigada!

Solte o verbo!

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