Tô voltando!

Não, eu não morri. Sim, eu abandonei um pouco o blog.

Olá, tô de volta e é isso que importa!

Pensei em escrever sobre como anda minha vida desde o último post (novembro do ano passado, ok?), mas desisti. Primeiro que eu já esqueci de mais da metade dos acontecimentos, segundo, que o que eu trabalhei para esquecer, não vou correr atrás de lembrar agora. E terceiro, que me deu preguiça mesmo. É isso, estou um pouco preguiçosa. Deve ser reflexo dos meus últimos 4 dias de férias da redação.

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O Rio e a maravilha de poder descansar

Aí uma coisa boa de se falar: FÉRIAS. Como isso é bom, né? Estas estão sendo minhas primeiras férias como gente grande, ou seja, não são férias escolares/universitárias. E o que eu fiz? Torrei boa parte do meu salário com uma viagem incrível para o Rio. Comi, bebi, dancei, cantei, falei inglês, espanhol, alemão e chinês (pelo menos eu acredito que tenha falado), andei a pé de madrugada por ruas desconhecidas, fui a última a sair de um bar que tem como homenageado Bukowski (por favor, não imaginem minha situação!), tomei vários caldos na praia por motivo de: foda-se, tô de férias, me perdi algumas vezes como já era de se esperar. Enfim, trabalhar é bem legal, mas sair de férias é ainda melhor.

Nos meus últimos dias de trabalho estava me sentindo uma senhora de 83 anos de idade. Meu nível de irritação, stress, raiva, cansaço, MUITO cansaço, já tinha ultrapassado seu limite há tempos. Nunca fiz outra coisa na vida profissionalmente além de ser jornalista, então não sei como é ter horário para entrar e sair da empresa, finais de semana livres, feriados, almoços com um pouco mais de 20 minutos, meia hora para uma soneca e tranquilidade no fim do dia. Até hoje essa foi e continua sendo minha única realidade. Talvez seja legal ter outro emprego. Talvez não. Acho que ainda vou demorar alguns anos para saber. Talvez nunca saiba.

Nesses quase 2 anos como jornalista ainda não aprendi a voltar para a casa e deixar todas as merdas que eu vi, ouvi e senti na redação. Não dá para dormir tranquila depois de ter ido a qualquer bairro de periferia, onde as pessoas não têm uma casa decente para morar. Não dá para ficar bem depois de acompanhar de perto a rotina em hospitais públicos, onde não tem absolutamente nada para ninguém. Não dá para ter esperança vendo tanta roubalheira e ninguém verdadeiramente punido. Ainda não consigo desligar o computador e me desligar disso tudo também. Por isso, a alma envelhece e cansa. E junto com a alma, o corpo.

Nas últimas semanas já não escrevia no mesmo ritmo de antes, já não tinha o mesmo ânimo, já chegava cansada para trabalhar. Meus dedos não me acompanhavam mais na hora de digitar. As anotações em minhas dezenas de bloquinhos eram incompreensíveis no final do dia. Os dias eram mais longos e cansativos. Até respirar estava difícil, já que minhas crises de asma aumentaram bastante.

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01 saudade: meus bloquinhos

Agora me vejo a poucos dias de voltar para essa “rotina” e uma mistura de saudade e desistência confundem minha cabeça. Hoje comentei com a minha mãe que eu acho que “perdi o pique” do combo: 2 empregos + pouco tempo para viver + muito stress + não sabe fazer outra coisa da vida, então, aguenta, filha. Já escrevi aqui sobre o carma do jornalismo e cada vez mais acredito nisso. Durante as minhas férias fiquei pensando em outras possibilidades, outros empregos e vejam só, cá estou eu contando os dias para voltar a vida de sempre.

É isso. Aos poucos estou voltando e o blog faz parte desse retorno.

Para quem estava com saudades, o meucriadomudo continuará sendo minha terapia particular e depósito de pensamentos, músicas, filmes e, claro, muita reclamação, porque, né, sou a mesma Bruna de sempre. Só um pouco mais velha e cansada. E com duas novas tatuagens também, para alegria da minha mãe. 😉

OBS: vi em algum blog por aí que o autor sempre colocava ao fim do post a música que ele estava ouvindo enquanto escrevia. Achei legal e este ano farei o mesmo. É possível que de vez em quando eu tenha vergonha, mas, enfim, ouço tudo no aleatório e PODE SER que apareçam algumas músicas de gosto duvidoso. Não deixem de visitar o blog por isso, tá? Obrigada.

Post ao som de: Steoreophonics – Devil

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Cada um sabe o carma e a delícia de ser o que se é

Depois de muito tempo entrevistando pessoas por aí, hoje passei para o outro lado. Quando saía para cobrir uma pauta, uma garota estava na recepção do jornal. Ela está cursando o 3º ano do ensino médio e estava entrevistando profissionais de diversas áreas para seu teste vocacional. Perguntou se eu podia responder em “cinco minutinhos” algumas perguntas. Topei.

Ela começou me perguntando por que escolhi fazer jornalismo. Respondi que quando criança gostava de escrever histórias, mas gostava mais ainda de contar histórias, de preferência, histórias reais que tivessem acontecido comigo ou coisas que eu vi pela rua. Desisti de ser escritora e resolvi ser jornalista. Pensei em contar para ela sobre aquele sonho mucho loco de “mudar o mundo e fazer dele um lugar mais justo, honesto e perfeito, hasta la vista!“, mas achei que ela fosse rir da minha cara. Fomos para a próxima pergunta.

“Qual a parte mais difícil do seu trabalho?”. Respondi que é lidar com gente todos os dias. Tanto aquelas que valem a pena, quanto as que não. Aí ela perguntou qual a melhor parte e eu respondi que era justamente lidar com gente todos os dias. Ela não entendeu nada e eu muito menos.

Fiquei com essa interrogação na cabeça. Daí lembrei que quando pequena, levava livros para a escola para lê-los durante o “recreio”. Enquanto as outras crianças jogavam bola e brincavam, eu sentava em um canto da quadra e lia. Depois de um tempo, cansada de não ter com quem falar, comecei a escrever. As folhas em branco eram minhas amigas. Passava horas lhes contando sobre o meu dia, sobre as coisas engraçadas que eu via na rua, sobre meus medos, enfim, escrevia sobre tudo.

Escrevia e lia para não ter que ficar perto das pessoas. Detestava trabalhos em grupo, dinâmicas e jogos. Um dia, um professor de educação física insistiu que eu tinha que entrar no time de handebol porque eu tinha uma “mão pesada e forte”. Virei o terror da escola. Todos tinham medo de jogar no time contrário. Eu adorava ser temida por eles. Era uma forma de mantê-los longe de mim. Poucos tinham “coragem” de chegar perto. Os que chegavam, eu dava um jeito de afastar.

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Semana passada minha editora me disse que minhas melhores matérias são aquelas em que vou para rua, converso com as pessoas, entro na casa delas, ouço seus problemas, suas histórias. “Bruna, você é uma repórter de rua. Não pode ficar dentro da redação que dá merda”. Ouvi e concordei. Enfurnada na sala, fico sem ar, sem criatividade. Ando de um lado para o outro sem rumo algum.

Gosto de ir para rua. Gosto de ouvir as pessoas e contar suas histórias. Algumas são bonitas, outras são tristes. Já voltei para casa chorando com vontade de largar tudo e, sei lá, trabalhar em um escritório de qualquer coisa sem conviver com ninguém. Mas não dá. Não rolaria. Preciso dessa gente que eu tanto afastei.

Ainda penso em ser escritora, porém, sinto que dividirei essa função com o cargo de jornalista. Não me imagino mais fazendo outra coisa. Pode ser muito bonito ler isso, mas é desesperador também. Estou presa à essa vida para sempre. Sabe aquela imagem da jornalistona de cabelos brancos, óculos e camisa xadrez? Então. Serei isso. Com umas tatuagens pelo corpo, ok, mas ainda assim de cabelos brancos, óculos e camisa xadrez.

Não sei se aquela garota pensou nisso enquanto me perguntava sobre minha profissão. Ser jornalista é um carma para o resto da vida. Uma vez nessa vida, sempre nessa. Fudeu, gente. FU-DEU.