Nananinanão, Quintana!

Tudo ia muito bem, eu ia concordando com tudo, até que ao final de “Definições” do Mário Quintana fiquei com raiva, li e reli e continuei com raiva.

“Deficiente” é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono de seu destino.

“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui.

 “Cego” é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria. E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

 “Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

 “Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

 “Paralítico” é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

 “Diabético” é quem não consegue ser doce.

 “Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois “miseráveis” são todos que não conseguem falar com Deus.

Concordo que sou deficiente, louca, cega, surda, muda, paralítica, diabética e até anã, em algumas ocasiões, mas miserável, Quintana? Miserável, não!

Minha deficiência não me deixa perceber que sou dona de meu destino como você falou, talvez por isso cometa a loucura de não procurar ser feliz com o que possuo. Minha miopia se transforma em cegueira quando enxergo apenas os meus problemas, o que leva também a uma certa surdez, pois só ouço minhas reclamações, como se elas fossem maiores ou melhores que qualquer outra. Aí a garganta fecha e a voz se cala diante da dor ou até da alegria e fica mais fácil continuar parada, imóvel, como uma paralítica. Bom, minha diabetes é incurável, o que leva a outro problema, meu nanismo. Se bem que nem todos diabéticos são anãos, mas enfim… Agora, me chamar de miserável foi demais. Passou dos limites, Quintana! Não esperava isso de você, não mesmo.

Tá prestando atenção, Quintana?

Assumo todas minhas deficiências, mas não falar com Deus é uma de minhas qualidades, acredito eu. Pelo menos jogo a culpa por ser quem sou à ninguém que não seja eu mesma. Talvez fosse mais fácil esperar por “justiça divina”, acreditar que “Deus escreve certo por linhas tortas”, que a “mão do Senhor resolve tudo” e todas essas besteiras que sempre ouvi e continuo ouvindo, mas não, seria miserável demais para alguém já tão cheio de defeitos. Caso você leia isso, mude esse final, ok? Assim que o fizer, edito este post e digo que agora está tudo na mais perfeita ordem e paz nos reinos dos céus. Ora, ora, me chamar de miserável…

ps: fiquei tão entretida na nossa conversa, Quintana, que me esqueci que já estás “deitado de sapatos”, neste caso, meu post continuará assim com você me achando miserável e eu concordando até a última linha com você. Pode ser?