Sem sentido

Querer morrer, mesmo que seja de vez em quando, não faz mal. O que faz mal, bem mais do que de vez em quando, é viver. Faz mal ver que seus sonhos se reduziram a realidade. Faz mal saber que o “futuro a Deus pertence” quando não se acredita na existência dele. Faz mal olhar pro passado e ver que o que se queria para o futuro não existirá. Faz mal perceber que as coisas boas da vida vem e vão embora numa fração de segundos, enquanto que as ruins, duram mais do que uma eternidade.

O intervalo de tempo entre o nascer e o morrer deve ter sentido, para algumas pessoas. Tanto um quanto o outro não se escolhe, o destino se encarrega de resolver. Entretanto, esse intervalinho é composto pelas escolhas, derrotas, conquistas, perdas, alegrias, decepções, prazeres, inconveniências, saudades, descobertas…são tantas as coisas que preenchem esse intervalo que é errado dizer que há uma existência vazia. O que há, e mais do que se imagina, é uma existência sem sentido, sem valor, sem porquê. O que você está fazendo nesse intervalo de tempo?

Dá vontade, né?

Eu estou quase no limite. Mais um pouco e chegarei ao outro extremo. Se a vida tem um sentido mesmo, não me falaram ainda. Talvez porque estejamos mudos e surdos. Talvez não saibamos o que dizer nem o que ouvir. Talvez esperemos por respostas que não existam. Talvez não seja tão ruim. Talvez seja bom. Talvez não tenha chegado a vez de ser feliz. Talvez nunca chegue. Talvez um dia a vida se resolva e deixe de ser um eterno talvez nesse curto intervalo de tempo. Talvez você saiba o que fazer enquanto espera a morte chegar. Morte, a única que não nos engana. Um dia ela chega.

pra cortar os pulsos…

A vida apenas, sem mistificação

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

É tão estranho quando a única voz que se ouve é a da própria cabeça. Uma mistura de egoísmo com dúvida, mais um do que o outro. E quem não é egoísta ou vive em dúvidas? Drummond disse que não adianta morrer, então o jeito é seguir a “ordem”, seguir a vida sem mistificação. Como se fosse fácil, não?