Cada um sabe o carma e a delícia de ser o que se é

Depois de muito tempo entrevistando pessoas por aí, hoje passei para o outro lado. Quando saía para cobrir uma pauta, uma garota estava na recepção do jornal. Ela está cursando o 3º ano do ensino médio e estava entrevistando profissionais de diversas áreas para seu teste vocacional. Perguntou se eu podia responder em “cinco minutinhos” algumas perguntas. Topei.

Ela começou me perguntando por que escolhi fazer jornalismo. Respondi que quando criança gostava de escrever histórias, mas gostava mais ainda de contar histórias, de preferência, histórias reais que tivessem acontecido comigo ou coisas que eu vi pela rua. Desisti de ser escritora e resolvi ser jornalista. Pensei em contar para ela sobre aquele sonho mucho loco de “mudar o mundo e fazer dele um lugar mais justo, honesto e perfeito, hasta la vista!“, mas achei que ela fosse rir da minha cara. Fomos para a próxima pergunta.

“Qual a parte mais difícil do seu trabalho?”. Respondi que é lidar com gente todos os dias. Tanto aquelas que valem a pena, quanto as que não. Aí ela perguntou qual a melhor parte e eu respondi que era justamente lidar com gente todos os dias. Ela não entendeu nada e eu muito menos.

Fiquei com essa interrogação na cabeça. Daí lembrei que quando pequena, levava livros para a escola para lê-los durante o “recreio”. Enquanto as outras crianças jogavam bola e brincavam, eu sentava em um canto da quadra e lia. Depois de um tempo, cansada de não ter com quem falar, comecei a escrever. As folhas em branco eram minhas amigas. Passava horas lhes contando sobre o meu dia, sobre as coisas engraçadas que eu via na rua, sobre meus medos, enfim, escrevia sobre tudo.

Escrevia e lia para não ter que ficar perto das pessoas. Detestava trabalhos em grupo, dinâmicas e jogos. Um dia, um professor de educação física insistiu que eu tinha que entrar no time de handebol porque eu tinha uma “mão pesada e forte”. Virei o terror da escola. Todos tinham medo de jogar no time contrário. Eu adorava ser temida por eles. Era uma forma de mantê-los longe de mim. Poucos tinham “coragem” de chegar perto. Os que chegavam, eu dava um jeito de afastar.

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Semana passada minha editora me disse que minhas melhores matérias são aquelas em que vou para rua, converso com as pessoas, entro na casa delas, ouço seus problemas, suas histórias. “Bruna, você é uma repórter de rua. Não pode ficar dentro da redação que dá merda”. Ouvi e concordei. Enfurnada na sala, fico sem ar, sem criatividade. Ando de um lado para o outro sem rumo algum.

Gosto de ir para rua. Gosto de ouvir as pessoas e contar suas histórias. Algumas são bonitas, outras são tristes. Já voltei para casa chorando com vontade de largar tudo e, sei lá, trabalhar em um escritório de qualquer coisa sem conviver com ninguém. Mas não dá. Não rolaria. Preciso dessa gente que eu tanto afastei.

Ainda penso em ser escritora, porém, sinto que dividirei essa função com o cargo de jornalista. Não me imagino mais fazendo outra coisa. Pode ser muito bonito ler isso, mas é desesperador também. Estou presa à essa vida para sempre. Sabe aquela imagem da jornalistona de cabelos brancos, óculos e camisa xadrez? Então. Serei isso. Com umas tatuagens pelo corpo, ok, mas ainda assim de cabelos brancos, óculos e camisa xadrez.

Não sei se aquela garota pensou nisso enquanto me perguntava sobre minha profissão. Ser jornalista é um carma para o resto da vida. Uma vez nessa vida, sempre nessa. Fudeu, gente. FU-DEU.

Ela que não sou eu. Eu que sou ela.

Ela que nunca ligou para sentimentalismos baratos. Que sempre evitou abraços coletivos ou demonstrações exageradas demais.
Ela que nunca gostou de ficar perto de muita gente. Que sempre preferiu ouvir mais do que falar.
Ela que nunca soube demonstrar quando ama. Que sempre sabe como demonstrar que odeia.

Ela que nunca foi de pedir desculpas. Que sempre fez questão de tirar satisfação.
Ela que nunca foi de mentir para agradar alguém.  Que sempre desagradou por falar quando não deveria.
Ela que nunca foi à Lua. Que sempre está de olho nela todas as noites.

Ela que nunca soube até onde iria chegar. Que sempre soube que onde vai chegar é uma incerteza, talvez não aconteça,  ou talvez aconteça, mas não como ela pensa que será.
Ela que nunca gostou do “e se”,  quer saber “quando é mesmo?”